O Show

Domingo fui ao Auditório Ibirapuera e assisti ao maravilhoso show do cantor, compositor e pianista Breno Ruiz, acompanhado por Igor Pimenta (baixo) e Gabriel Alterio (bateria), tendo os cantores Mônica Salmaso e Renato Braz como convidados especiais. Já conhecia algumas canções de seu belo cd ‘Cantilenas Brasileiras‘, todo em parceria com o genial letrista Paulo César Pinheiro. Domingo fui ao Auditório Ibirapuera e assisti ao maravilhoso show do cantor, compositor e pianista Breno Ruiz, acompanhado por Igor Pimenta (baixo) e Gabriel Alterio (bateria), tendo os cantores Mônica Salmaso e Renato Braz como convidados especiais. Já conhecia algumas canções de seu belo cd ‘Cantilenas Brasileiras‘, todo em parceria com o genial letrista Paulo César Pinheiro. Eu não faço a polêmica (e preconceituosa) distinção entre a ‘boa música’, aprendida em conservatórios, e a ‘música ruim’, feita por mim e outros violeiros de botequim. Penso que, de todos os territórios, terrenos e terreiros, podem surgir chatices e genialidades, entretenimento efêmero ou obras imortais. O Breno compõe cantigas, chorinhos e lundus com entonação pop e visão contemporânea. Suas canções dão um nó nas pontas de dois séculos, juntando conceitos modernos e sofisticados às matrizes da música mais tradicional e reconhecidamente familiar, agradavelmente íntima. Breno coloca sua apurada técnica de instrumentista (e compositor) a serviço da canção popular.

 

Quando os poemas de P. C. Pinheiro deslizam leves sobre suas esguias melodias, uma sensação de brasilidade perdida nos percorre. Águas, matas, onças, pássaros e cânticos de uma gente esquecida parecem invadir a sala, como que materializando tempos paralelos. São pescadores, cozinheiras, lavradores e lavadeiras cantando seu cotidiano sem memória, a escravidão, a desimportância a que foram relegados, o descaso e maus tratos que sofrem desde sempre. Seus amores e esperanças nos encantam, vigorosos. O canto de Breno é denso e dá conta das tocantes histórias. Mas quando esse pacote de emoções nos chega pelas vozes de Mônica Salmaso e Renato Braz, o arrepio é total, imediato e arrebatador. Quando cantam juntos, então, todas as fortalezas desabam. A alma se despe de sua pesada armadura. Foi tanta beleza flutuando nos sons que eu simplesmente desabei, me desarmei e chorei. Chorei sem um porquê, chorei como um rio largo, torrentemente, chorei. Como chuva de orgasmo. Chorei pela beleza. Pelo encontro. Pela música. Pela cultura. Chorei de agradecimento por estar vivo. Chorei de felicidade por fazer parte disso. Desse coro mestiço de anônimos, desse choro que ninguém ouve. Chorei Brasil, chorei povo. Chorei com eles todos, no tom. Nossa voz embargada estava ali, ecoando na sala livre de Niemeyer, sob a língua vermelha de Tomie, num Ibirapuera tupi. Chorei até sorrir, até sentir de onde vim. Nós somos uma nação, sim.

Texto: Arnaldo Afonso para o blog Sarau, Luau e Escanbau.

 

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